7. ARTES E ESPETCULOS 20.3.13

1. ARTE  TICIANO, O PERSEVERANTE
2. CINEMA  ALTA INFIDELIDADE
3. CINEMA  CRIATURA ESTRANHA
4. TELEVISO   A VOVOZINHA!
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  BRASIL DA CHIBATA

1. ARTE  TICIANO, O PERSEVERANTE
Um dos maiores pintores do renascimento, cuja vida tambm foi arte,  homenageado com uma exposio na capital italiana.
MARIO SABINO, DE ROMA

	Nesta Europa em que gregos, sem dinheiro para pagar a calefao, usam lenha para afugentar o frio, espanhis protestam contra a realidade dia sim, o seguinte idem, franceses em estado de denegao coletiva tiram longas frias pascais (ah, como tm frias, esses franceses!), alemes no querem pagar a conta da folia fiscal dos vizinhos  e, mais precisamente, nesta Itlia sem governo, pode-se encontrar um exemplo de como enfrentar perodo to conturbado. Ele est na trajetria de um dos maiores pintores do renascimento, a quem Roma dedica uma exposio desde a semana retrasada. Ele  Tiziano Vecellio (daqui em diante, o nome ser aportuguesado para Ticiano), nascido entre 1488 e 1490, na cidadezinha veneta de Pieve di Cadore, e morto 86 anos mais tarde, na Veneza que ajudou a transformar num canteiro de maravilhas sem rival.  Trinta e oito pinturas suas, e outras trs de discpulos seus, esto reunidas at 16 de junho na Scuderie del Quirinale, a antiga cachoeira do palcio a partir do qual o presidente Giorgio Napolitano, em final de mandato, tenta dar um rumo poltico aos pas das urnas confusas.
	Distribuda por dez salas, a mostra vale cada centavo dos 12 euros da entrada, tanto para os nefitos como para aqueles j h algum tempo iniciados no renascimento.  um resumo magnfico da produo do artista e, por extenso, da fase mais vigorosa da pintura italiana. No  menos do que um deslumbre para os que,  margem da Veneza  turstica dos russos e chineses, caam as suas obras espalhadas pela cidade  e as continuam procurando alhures. Ticiano  uma referncia ineludvel para retratistas passados e presentes. Ticiano iniciou uma revoluo no emprego das cores. Ticiano fascinou o poeta alemo Goethe. Ticiano  o nome de uma enorme cratera de Mercrio. 
 margem da Veneza dos badulaques tursticos.  emocionante apreciar a Anunciao, de 1535, apartada da Scuola Grande di San Rocco, cujas paredes e teto exibem o mais formidvel legado de Jacopo Tintoretto, o concorrente mais jovem (e prolfico) de Ticiano. Nela, a madona recebe a visita de um arcanjo com um qu de divindade pag e tem, j perto de si, como a significar a fecundao divina, uma perdiz de patas vermelhas que caminha em sua direo. Apequenada na Scuola, a tela resplandece, em Roma, com suas cores vvidas  uma das caractersticas de Ticiano que, na sua passagem para a velhice, adquire a condio de forma em si prpria. Da o apreo de artistas modernos pelo mestre renascentista. Da o desdm de Michelangelo, que viu em Ticiano a falta de habilidade no desenho. A inveja pode ser premonitria. O sculo XVI, na arte, seria definido como o "do desenho de Michelangelo e da cor de Ticiano". 
     Essa mudana na utilizao das cores fica evidente na Anunciao realizada cerca de trs dcadas depois. A pintura causou estupor ao desobedecer ao padro clssico. O arcanjo, aqui, assemelha-se a um andarilho e a madona, a uma dama oriental de seios trgidos, que levanta o vu do rosto para examinar a figura celeste. Ambos, no entanto, so coadjuvantes do turbilho cromtico na parte superior da tela, com sua mistura de anjos, nuvens em desagregao e o Esprito Santo que a tudo incendeia como pomba luminosa. Para a Scuola Grande di San Rocco, Tintoretto tambm pintou uma Anunciao extica aos olhos de seus contemporneos: uma revoada de anjos que irrompem no casebre em que habita a madona  casebre cujo leito de rainha, ao fundo, somado ao cho azulejado e ao teto entalhado em madeira,  um contraste que sinaliza a majestade divina da mulher humilde. Mas a cena de Tintoretto, com Jos labutando como carpinteiro, alheio ao que se desenrola em seu lar, situa-se ainda dentro da histria, em que pese o tema mstico. Na de Ticiano, no h mais histria  e, nisso,  similar ao Juzo Final, de Michelangelo. No h contorno real ao episdio bblico. A obra  surrealista com quatro sculos de antecedncia. 
     Um retrato de sua autoria era considerado um passaporte para a eternidade, embora certos protagonistas tenham alcanado a obscuridade com o correr dos anos, garantindo imortalidade apenas ao artista  caso de Homem da Luva. Compreende-se: Ticiano era o pintor preterido de Carlos V, imperador do Sacro Imprio Romano-Germnico. Quem est l no alto no costuma enxergar sutilezas. O soberano espanhol mandou saquear Roma em 1527. Seis anos depois, em Bolonha, o artista o retratou. A tela, pertencente ao Museu do Prado, em Madri,  dividida na vertical por uma fenda na camisa de um Carlos V espadado. Para alm de dar equilbrio  composio, o detalhe da indumentria remete ao fato de que o poder absoluto no  invulnervel. Por meio do amigo Pietro Aretino, o poeta libertino que se transferiu para Veneza no ano em que a espada de Carlos V lacerava a Itlia, o papa Paulo III quis conhecer Ticiano. O comandante impiedoso da Contrarreforma encontrou traduo no retrato que o apresenta como velho ressequido e com os dedos longos que se estendem como tentculos. Quase uma alegoria do poder papal no Renascimento. Alegrico, em extremo,  O Tempo Governado pela Prudncia. 
     Ticiano era avaro. Ticiano gostava de honrarias. Ticiano nutria antipatias fortes. Ticiano teve o despudor de pintar um autorretrato exaltativo (e estupendo, claro). Mas o Ticiano exemplar de que se falou no incio  o primeiro pintor a trabalhar como empresrio, e que demorava a ser pago pelas encomendas que lhe eram feitas, quando era pago. Nada muito diferente do que acontece com os pequenos empreendedores de uma Europa ameaada pela desagregao.  o sujeito que nunca traiu seus pares, para conquistar benefcios ou obter o que era seu. H valores a ser preservados, no importam as condies e as adversidades.  o europeu no melhor sentido da palavra  de suas razes, construiu pacientemente uma obra que comenta sua poca e transcende sua latitude e os sculos. Perseverana na guerra, na peste, nos maus governos. A beleza da perseverana.  este Ticiano, enfim, que tambm est exposto em Roma.


2. CINEMA  ALTA INFIDELIDADE
Em nova e vistosa verso, Anna Karenina no apenas sucumbe sob o peso do adultrio, como paga um preo alto pelo excesso de enfeites e artifcios narrativos.
MRIO MENDES

     O diretor ingls Joe Wright recebeu discretos elogios por duas respeitosas adaptaes literrias que fez em filmes anteriores: o agradvel Orgulho e Preconceito e o comiserativo Desejo e Reparao  ambos estrelados com beleza e frescor por Keira Knightley. Em Anna Karenina (Inglaterra, 2012), desde sexta-feira em cartaz no pas, Keira  mais uma vez o centro das atenes, porm o material em questo possui maior envergadura  a caudalosa obra-prima do russo Leon Tolstoi, vrias vezes transposta para o cinema , e o tratamento dado a ele  muito mais ambicioso. 
     Para enfatizar o moralismo conservador e o elaborado jogo de aparncias na Rssia czarista do sculo XIX, Wright concentrou quase todos os cenrios da trama entre o palco, a plateia e os bastidores de um grande teatro, especialmente construdo em estdio para abrigar a ao. Dos interiores suntuosos s ruas movimentadas e estaes de trem, passando pela opulncia do figurino  premiado com o Oscar , tudo serve de moldura para uma encenao dentro de outra encenao. A tcnica narrativa  providenciada por um especialista no assunto, o roteirista e dramaturgo Torn Stoppard (veja o quadro na pg. ao lado). O resultado fica entre a vivacidade coreogrfica de um belo musical  do qual se removeu a cantoria irritante  e o melodrama de poca puro e simples.  neste, alis, que o diretor parece estar mais  vontade, descansado da brincadeira de faz de conta. 
     To clebre quanto outra trgica adltera da literatura  a protagonista de Madame Bovary, de Flaubert , Anna Karenina  uma nobre russa acomodada em seus privilgios e entediada em um casamento morno de nove anos com um ministro do imprio, o calvo e sisudo Karenin (Jude Law). Essa monotonia  chacoalhada em uma viagem de So Petersburgo a Moscou. L, Anna deve interceder pelo irmo, Oblonsky (Matthew Macfadyen), que no sabe como obter o perdo da mulher por ter se envolvido com a governanta. Anna se sai bem na refrega domstica, mas  ela prpria fulminada pela paixo extraconjugal quando conhece o jovem conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), oficial da Cavalaria e dndi emrito. A partir da, mergulha em uma paixo descabelada que acaba lhe custando a reputao, a posio social, a guarda do filho e at a prpria vida. 
     Enquanto os valores visuais da produo funcionam exemplarmente para sublinhar a teatralidade premeditada dos ambientes rarefeitos da aristocracia, o artifcio acentua as fraquezas de certos desempenhos e colabora para emperrar a narrativa: h bailes, pantomimas e rebuscadas trocas de cenrio demais para densidade dramtica de menos. Apesar de Keira defender com bravura a sua Anna de insolente imprudncia, fica difcil acreditar que essa mulher mundana se deixe levar, para alm da mera escapada romntica, por um rapaz gabola dominado pela me, de redondos olhos azuis e revolta cabeleira loira. Na interpretao de Aaron Taylor-Johnson, este Vronsky  to ftil e frgil que mesmo a placidez e a agressividade contida de Karenin parecem uma opo mais atraente. To ftuos so os desempenhos que Oblonsky, que est ali apenas como bufo encarregado de fornecer alvio cmico ao drama, resulta a presena masculina mais vigorosa em cena. 
     Em um outro registro, h a trama paralela do romance entre a doce Kitty (Alicia Vikander), a ex-favorita de Vronsky, e o determinado e idealista Levin (Domhnall Gleeson). So deles as tomadas externas de plancies nevadas e em interiores decorados com maior naturalidade. A sensao  que pertencem a um filme diverso, menos ambicioso, porm mais sincero e eficiente: ao menos entre Kitty e Levin transparecem calor e fascnio mtuos, coisa que o casal de protagonistas falha em entregar.  como diz Karenin a Anna: "Todo pecado tem seu preo''. Esta Anna Karenina ofuscada por brilhos de diamantes e fogos de artifcio escolhe passar ao largo do questionamento existencial e da crtica de costumes propostos por Tolstoi. E, assim, nesta encarnao o destino final da herona termina por soar como uma terrvel, porm merecida, reprimenda a uma garota mimada. 

A VIDA  UM PALCO
O diretor Joe Wright no  o primeiro a se valer do recurso da encenao dentro da encenao para ressaltar temas como as imposies sociais e a artificialidade das relaes pessoais.

ROSENCRANTZ & GUILDENSTERN ESTO MORTOS (1990)
Gary Oldman e Tim Roth interpretam esses dois personagens menores de Hamlet, que, no filme adaptado por Tom Stoppard (roteirista tambm de Anna Karenina) de sua prpria pea, observam as aes dos protagonistas se desenrolar no palco principal, por assim dizer  e quase invariavelmente se equivocam na interpretao delas, ou se atribuem mais importncia no enredo do que de fato tm.

DOGVILLE (2003)
Sem cenrios e apenas com marcaes de giz no cho do estdio, o diretor dinamarqus Lars von Trier encenou sua fbula moral sobre uma jovem (Nicole Kidman)  merc de estranhos na cidade inventada do ttulo. O recurso, de incio incmodo para a plateia, pouco a pouco a submerge nos mecanismos da cultura da crueldade que Von Trier, com sua contundncia habitual, quer desnudar.

MARIA ANTONIETA (2006)
Smbolo dos excessos da monarquia que levariam  Revoluo Francesa no sculo XVIII, Maria Antonieta (Kirsten Dunst), a ltima rainha da Frana,  uma mulher que est no centro do poder mas no tem nenhum arbtrio sobre sua vida neste espetculo pop desenhado com luxo extravagante e protocolo teatral pela diretora Sofia Coppola.


3. CINEMA  CRIATURA ESTRANHA
Mstico, brutal e desestabilizador no seu horror e na sua beleza, Piet ilustra as virtudes do cinema sul-coreano.

     No cinema, certos excessos s convencem quando cometidos em zonas especficas  por exemplo, no leste, acima do paralelo 35 Norte, onde Japo, China, Coreia do Sul e Rssia se destacam na arte de uma tragdia hiperblica e alegrica completamente estranha s noes ocidentais do que  crvel ou aceitvel. Os coreanos, em particular, no parecem ter freio, e por isso fazem hoje o cinema mais original, palpitante e perturbador que h. Veja-se, por exemplo, o trabalho de diretores como Chan-wook Park (Zona de Risco, Sede de Sangue e Oldboy), Joon-ho Bong (O Hospedeiro, Morther e Memrias de um Assassino), Hong-jin Na (O Caador) e Ki-duk Kim, de Casa Vazia, O Arco e este Piet (Coreia do Sul, 2012), ganhador do Leo de Ouro em Veneza e desde sexta-feira em cartaz em So Paulo, Rio de Janeiro e Recife. 
     Aqui, um rapaz vive de ameaar com brutalidade indizvel as pessoas que no saldaram suas dvidas para com agiotas. Todas as vtimas de Gang-do (Jeong-jin Lee) vivem no mesmo lugar que ele, um velho centro dilapidado de alguma cidade sul-coreana. Todas pegaram dinheiro emprestado a juros escorchantes em um momento de desespero: so sempre pequenos comerciantes, operrios, mecnicos. Gang-do at gosta que eles no paguem, pois assim pode espanc-los e mutil-los (usando as prprias ferramentas com que eles trabalham), no que tem grande prazer, para recolher ento seu seguro de invalidez. Certo dia, porm, uma mulher de seus 40 e poucos anos bate  porta de Gang-do, diz ser a me que o abandonou no nascimento e no arreda mais p dele, apesar da violncia chocante com que ele a trata. A despeito de si mesmo, ento, Gang-do comear a experimentar as primeiras pontadas de sentimentos que h muito tempo no conhecia, se  que algum dia chegara a conhec-los: amor, desejo de proteger, algo parecido com compaixo. Assim, quando a me (Min-soo Jo)  sequestrada, ele se desespera: j no pode viver sem ela. E comea a visitar todas as suas vtimas, certo de que o rapto  uma vingana. 
 capciosa a aluso que Ki-duk Kim prope desde o ttulo com a Piet, a imagem clssica da Virgem Maria acalentando em seus braos o Cristo morto, cuja verso mais conhecida  a da escultura de Michelangelo. H no filme, sem dvida, uma me que lamenta seu filho: h ainda, como Gang-do suspeita, uma vingana. Mas a maneira como esses elementos se organizam  estarrecedora, tanto do ponto de vista da imaginao com que  concebida como da sua ressonncia religiosa  um bocado heterodoxa,  verdade, mas tambm to mstica e profundamente infundida da noo de sacrifcio que poderia ter sado da cabea de um monge medieval. O final, porm, vai alm at do que uma devoo febril seria capaz de inventar.  de um horror, e de uma beleza, que s mesmo cineastas sem amarras nem limites, como os sul-coreanos, conseguiriam gestar.
ISABELA BOSCOV


4.  TELEVISO   A VOVOZINHA!
O triunfo de Louco por Elas mostra que a Globo absorveu as lies das sitcoms americanas. A idosa meio doida mas sensata vivida por Glria Menezes  a melhor prova disso.

     Ao convidar Glria Menezes para um papel na srie Louco por Elas, o roteirista e diretor Joo Falco firmou um acordo com a atriz. Glria s topou viver Violeta, vov hiperativa e doidinha, aps ser informada de que o programa teria apenas oito episdios. Enfatizando que no desejava se comprometer por muito tempo, Glria sugeria uma soluo caso as coisas no sassem como o previsto. "Voc mata a Violeta e pronto", disse a Falco. A esta altura, claro, j se sabe: tal promessa  e no a velhinha   que virou letra morta. Em junho, Louco por Elas completar sua terceira temporada seguida, com um total de 45 episdios programados  algo raro na linha de sries da Globo. A mdia de ibope de 14 pontos em So Paulo pe a atrao na liderana da faixa das 11 e meia das noites de tera-feira. Para alm do bom desempenho, trata-se de mais uma prova de que a Globo enfim absorveu as virtudes das sitcoms americanas. Louco por Elas, alis,  o equivalente brasileiro do sucesso Modern Family. Tem roteiro bem amarrado e direo moderninha  qualidades que se evidenciam nas guinadas abruptas da cmera e no timing preciso. Outra semelhana que no quer calar: as duas sries valem-se de um tom leve, mas sem didatismo boc, para tematizar os novos arranjos familiares. 
     Lo, o protagonista de Louco por Elas,  um instrutor de futebol de praia abandonado pela mulher por sua sina de perdedor. s portas dos 50 anos, o sujeito mora com a av, a enteada e a filha. Por mais que tente, no consegue desgrudar da ex, Giovana (Deborah Secco). O gal Du Moscovis corporifica esse perfeito banana com desenvoltura. O tempero safo da srie, contudo, est nos extremos etrios. A caula Theodora (Laura Barreto, de 12 anos)  toda adulta e segura de si, em contraponto ao paizo infantilizado. E vov Violeta expe o ridculo da correo poltica e de certa ansiedade em se autoafirmar que passaram a assombrar muitos adultos tanto no casamento quanto na educao dos filhos. A senhora parece estar a um passo da senilidade, mas se revela, afinal, mais lcida e sensata que as duas cabeas do ex-casal. "A Violeta no sofre de Alzheimer. Ela s se finge de boba", diz Glria Menezes. 
     A atriz que formou o "casal 20" dos primrdios da novela ao lado do marido, Tarcsio Meira, conta que no raro as pega rindo sozinha enquanto decora seu texto no cabeleireiro. "As pessoas olham como se a Violeta tivesse baixado em mira", diz. Segundo ela, porm, o nico trao em comum com a personagem  a faixa etria  Violeta teria 80 anos e Glria, 78. S no se pergunte se o cabelo da personagem  dela mesma: "bvio que aquilo  uma peruca. Basta ver fotos minhas por a para notar a diferena".  
MARCELO MARTHE


5. VEJA RECOMENDA
CINEMA 
A BUSCA (BRASIL, 2013. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
 Imersos na fase mais hostil de sua separao, Theo (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima) sem querer colocam seu filho, Pedro (Brs Moreau Antunes), no meio do fogo cruzado. Numa tentativa de se retratarem, decidem jantar juntos no aniversrio de 15 anos de Pedro. O menino, porm, no aparece. O amigo com quem ele supostamente estaria no sabe de nada. Informaes desencontradas comeam a surgir: Pedro vendeu seu computador; Pedro comprou um cavalo (!); um desconhecido liga do celular de Pedro e diz que o achou no acostamento de uma estrada. Enquanto Theo tenta refazer o trajeto do filho, o diretor estreante Luciano Moura exercita um controle admirvel dos ritmos dessa busca: vai do frenesi crescente a uma inflexo e, dela, para um progressivo e inesperado desafogo  que tem respaldo tanto nas descobertas de Theo a respeito de Pedro, como nas pequenas e grandes humilhaes a que ele se submete de bom grado, desde que elas o ponham mais perto do filho. Toda a estrutura arquitetada pelo diretor, porm (e  pena que o desfecho no esteja totalmente  altura dela), depende de um nico ponto de apoio: o desempenho de Wagner Moura, de uma coerncia e convico como sempre espantosas.

LIVROS
A QUESTO FINKLER, DE HOWARD JACOBSON (TRADUO DE REGINA LYRA; BERTRAND BRASIL; 448 PGINAS; 49 REAIS)
 Na volta de um jantar nostlgico com dois velhos amigos, Julian Treslove caminha numa regio de Londres que conhece bem pensando na recente viuvez de seus colegas. Est to absorto que  surpreendido por um vulto  sua frente. Uma mulher o agarra pelo pescoo e exige silncio. Relgio, carteira, caneta e celular so levados, e o impacto do assalto transforma a vida do protagonista, que vira um obcecado pelo judasmo. A probabilidade, afinal, de o roubo ter sido motivado por antissemitismo  cada vez mais patente, e Libor Sevcik e Sam Finkler, os amigos do jantar, ajudaro Julian a dissecar o caso. Vencedor do Man Booker Prize de 2010, o livro  uma inspirada comdia de costumes do ingls Howard Jacobson. Por ocasio da publicao, o autor  que assina uma coluna semanal no jornal The Independent  enfrentou uma dupla corrente. Uma ala o acusou de desrespeito para com a cultura e a religio judaicas. A outra enxergou a virtude celebrada em sua obra: a capacidade dos judeus de rirem de si mesmos e. mais ainda, do infortnio.

CONVERSA NO CATEDRAL, DE MRIO VARGAS LLOSA (TRADUO DE ARI ROITMAN E PAULINA WACHT; ALFAGUARA; 584 PGINAS; 56,90 REAIS)
 Jornalista medocre e frustrado, Santiago Zavala vai resgatar o cachorro de sua mulher, preso em um canil de Lima, e entre os funcionrios do lugar reconhece Ambrosio, antigo motorista de seu pai, o empresrio Fermn Zavala. Os dois saem para beber no bar Catedral, e a conversa que entabulam l dentro permite revisar toda uma era de autoritarismo e degradao na histria do Peru  a ditadura do general Manuel Apolinario Odra, de 1948 a 1956. As trajetrias paralelas de Santiago, o garoto da classe mdia alta que se envolve na militncia poltica radical, e de Ambrosio, um pobre-diabo que ganha a vida como pode nas funes mais abjetas, constroem um painel multifacetado dos dramas peruanos. O prprio Odra aparece como um dos personagens do livro, em cenas que exploram sua vida ntima. Publicado em 1969 e agora relanado no Brasil em nova traduo, este  um dos romances mais vigorosos do prmio Nobel peruano Mrio Vargas Llosa. No por acaso, ele diz que, se tivesse de salvar uma s de suas obras do fogo, sem dvida seria esta a escolhida. 

DISCO 
BLAK AND BLU, GARY CLARK JR. (WARNER)
 Se padrinhos famosos fossem indicativo de talento, o guitarrista texano Gary Clark Jr. estaria mais do que encaminhado. Eric Clapton o colocou para abrir suas apresentaes no Brasil, em 2011, e o presidente Barack Obama disse que Clark era "o futuro". O fato de ser negro e tocar guitarra lhe rendeu tambm uma incmoda comparao com Jimi Hendrix. Ele, verdade seja dita, no fez muito para se afastar dela: Blak and Blu inclui uma cover de Third Stone from the Sun, de Hendrix. Como instrumentista, faltam a Clark o ataque e o carinho pelo experimentalismo que transformaram o guitarrista canhoto numa lenda do rock. Por outro lado, ele tem vocais mais puxados para o soul e uma agressividade tpica de bandas de indie rock como Black Keys e White Stripes. Este  seu primeiro trabalho por uma grande gravadora aps quatro discos independentes. E um belo exemplar de sua versatilidade: vai de baladas soul como Please Come Home ao arrasa-quarteiro Ain't Messin' Around, alm de blues e funks. Um belo aperitivo para a segunda vinda do cantor e guitarrista ao Brasil, desta vez num festival de rock alternativo. 

DVD
MARTHA MARCY MAY MARLENE (ESTADOS UNIDOS, 2011. FOX/SONY) 
 Martha liga para sua irm da beira da estrada e pede a ela que v busc-la. O gesto est longe de ser trivial: Martha passou os dois ltimos anos vivendo sob o nome Marcy May, na sede de uma seita comandada pelo ameaador Patrick (John Hawkes, de As Sesses). Na casa belssima em que a irm Lucy (Sarah Paulson) vive com o marido, Martha emite sinais ambguos: ora parece estar se recuperando da lavagem cerebral da qual decidiu fugir, ora parece estar ainda to presa dela que simplesmente no sabe como funcionar entre as pessoas normais. Em sua mente, ao menos, ela retorna sempre ao casaro no meio do mato onde Patrick vive cercado de mulheres, e onde todas elas atendem o telefone identificando-se como "Marlene"  o alter ego agressivo e ressabiado das seguidoras desse profeta esquivo. Diretor estreante, Sean Durkin constri um persuasivo clima de dubiedade e paranoia, e tira uma excelente atuao em chiaroscuro de sua atriz principal, Elizabeth Olsen (irm mais nova, e de peso normal, das gmeas Mary-Kate e Ashley Olsen). 


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
5. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
6. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA
7. The Walking Dead  O Caminho de Woodbury  Robert Kirkman e Jay Bonansinga. GALERIA RECORD
8. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 
9. A Travessia  William Young. ARQUEIRO 
10.   Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. Mensalo  O Dia a Dia do Mais Importante Julgamento da Histria Poltica do Brasil  Merval Pereira. RECORD
3. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
4. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 
5. A Outra Histria do Mensalo Paulo Moreira Leite. GERAO EDITORIAL 
6. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 
7. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR
8. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO
9. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA 
10. Sibliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. A Mulher V  Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
2. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
3. Mentes Brilhantes  Renato e Cristine Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
6. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
9. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
10. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA


7. J.R. GUZZO  BRASIL DA CHIBATA
Roga-se s altas autoridades brasileiras, mais uma vez, a gentileza de responderem s perguntas apresentadas a seguir.  possvel que o pblico leitor gostasse de faz-las diretamente, mas no pode: cede-se a ele, a ttulo de colaborao, o espao desta coluna. 

     Poderia a presidente Dilma Rousseff ter a bondade de explicar, com um mnimo de clareza, o que  "fazer o diabo"? Dilma disse h pouco que nas campanhas eleitorais  permitido fazer exatamente isso, "o diabo", mas no deu nenhuma informao sobre os atos concretos que os candidatos, a comear por ela prpria, esto autorizados a cometer. O que vale? O que no vale? Coisa do bem no deve ser. Nunca se ouviu dizer, por exemplo, que Madre Teresa de Calcut fizesse "o diabo" em favor de suas obras de caridade. Pelo entendimento comum, fazer o diabo significa estar disposto a qualquer coisa, por pior que seja, para conseguir algo.  isso? 
     
     O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, acha que tem, sim ou no, o direito de chamar um cidado de "palhao" e mand-lo "chafurdar na lama"? Coragem, ministro: sim ou no? Dizer essas coisas, em pblico, no  crime de injria? Ou presidentes do STF esto desobrigados de obedecer ao artigo 140 do Cdigo Penal Brasileiro? 
     
     Colocar um fotgrafo do Instituto Lula, entidade privada, a bordo do avio presidencial que levou Dilma Rousseff (e o prprio Lula) aos funerais do coronel Hugo Chvez na Venezuela, e apresentar o rapaz como "intrprete" da comitiva, no  um delito de falsificao? Interprete ele no ; como acaba de informar em VEJA o redator-chefe Lauro Jardim, sua ocupao  tirar fotos para a coleo pessoal do ex-presidente. H outras dvidas. Ser que Dilma no entende nada de espanhol? No h nenhum intrprete de verdade entre mais de 1 milho de funcionrios do governo federal? Privatizar assentos a bordo do Aerodilma, para o Instituto Lula economizar um dinheirinho, j  um ato permitido pela doutrina de "fazer o diabo"? 
     
     O que o dr. Gilberto Carvalho, que tem no seu carto de visita o ttulo de "ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidncia da Repblica", quer dizer quando afirma, como fez h pouco, que "o bicho vai pegar"? Que bicho  esse? Pertence ao Patrimnio da Unio? Ele vai pegar quem? J foi solto, por exemplo, contra a blogueira cubana Yoani Snchez, que bandos de delinquentes a servio do governo atacaram em sua recente passagem pelo Brasil? Tem cabimento o ministro-chefe (a propsito: haveria algum ministro que no  chefe?) usar em pblico linguagem de bandido? Por que ser que tanta histria esquisita (a de Yoani  apenas a ltima de uma longa srie) comea, passa ou termina na sala do dr. Gilberto? 
     
     Quais os nomes da "meia dzia de famlias poderosas" que, segundo o presidente do PT, deputado Rui Falco, decidem "o que o nosso povo pode ler, ouvir e assistir"? Daria para o deputado, por cortesia, informar de onde ele tirou este nmero, "meia dzia", num pas que tem no momento quase 10.000 estaes de rdio, mais de 500 emissoras de televiso, cerca de 5500 revistas e 2700 jornais? Estaria ele reprovando o fato de que h veculos com audincia e circulao muito maiores que os demais, porque o pblico, por sua livre e espontnea vontade, prefere ver, ouvir e ler mais uns do que outros? Que culpa tm os veculos que fazem mais sucesso, ou que ilegalidade cometem por serem os preferidos pela maioria do pblico? 
     
     Por que o governador do Rio de Janeiro, Srgio Cabral, no guardou um tosto dos bilhes de reais que seu estado recebeu em royalties de petrleo nos ltimos anos? Desde 2007, quando assumiu o governo, at 2012, mais de 130 bilhes de reais foram arrecadados das empresas exploradoras de petrleo, e a parte do leo dessa montanha de dinheiro ficou com o Rio e seus municpios. Agora, com as perdas trazidas pela mudana na lei dos royalties, o governador se vinga atirando nos cidados do seu prprio estado: suspendeu pagamentos a fornecedores, ameaa criar mais impostos, fala em corte de servios. Se no guardou nada do que recebeu, o que fez de til com o dinheiro gasto? 
     
     O que h de comum entre essa gente toda  a convico de que mandam  e quem manda no precisa explicar nada a quem est embaixo. Falam em banda larga e pr-sal, mas continuam agindo como se vivessem no Brasil dos engenhos, dos capites do mato e da chibata. So os senhores do "Brasil para todos". 


